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Sábado, 20 de Outubro de 2007
ateliermob, às 17:11 | comentar :: comment | 2007.10.20

Mário Feliciano.jpg
Desenhar letras para jornais de todo o mundo
FERNANDO MADAÍL, DN 20.10.2007


Em vez de rebuçados, "pedia 25 tostões à minha mãe para ir comprar uma folha de papel cavalinho". O miúdo que adorava desenhar ganha agora a vida a conceber novas formas de letras, como a Eudal, que o leitor do DN conhece porque é o tipo em que este texto está impresso (os títulos já são em Monteros).
A mais recente publicação famosa para a qual Mário Feliciano - que, em Portugal, além do DN, é o autor dos tipos usados no Expresso (o nome da letra é o mesmo do jornal) e em O Jogo (baptizado de Olisípone) - criou uma nova família de letras é o El País.
O diário fundado por Spottorno, Cebrián e Polanco em 1976 era impresso em Times, o tipo de letra concebido em 1932 por Stanley Morison para o jornal londrino e que se tornou o mais popular e comercializado no mundo. A partir de agora, o El Pais vai começar a usar a letra Magerit, que é o nome que os árabes davam a Madrid.
Mas, afinal, como é que um português se impõe no orgulhoso país do lado? Mário Feliciano trabalha com consultores de design de publicações ("nunca vi ninguém do El País, porque os contactos são todos feitos por e-mails") e, no caso da reformulação gráfica do diário espanhol, a firma escolhida foi a escocesa Palmer & Watson.
Até Novembro, além do El País, mais dez jornais em Espanha vão passar a usar letras de Mário Feliciano. "Os espanhóis têm um misto de inveja e admiração pelo meu trabalho", admite o designer português.
E se o país vizinho não têm, presentemente, grandes criadores neste domínio - pois haverá umas duas dezenas de fazedores regulares de letras no mundo e o mais próximo concorrente do português mora em Paris -, também é curioso que os inspiradores de Mário Feliciano sejam artistas tipográficos espanhóis do século XVIII.
Deve a Manuel Silva - que começou a trabalhar em tipografia aos quatro anos ("antes de aprender a escrever o seu nome na escola já o compunha, com os caracteres metálicos na posição invertida") e se tornou um investigador de fontes e autores - o conhecimento da meia dúzia de nomes que se destacaram no mundo hispânico entre 1735 e 1790.
Além de Eudald Pradell e Antonio Espinosa de los Monteros (que deram nome às letras conhecidas dos leitores do DN), de Ismal Merlo, de Rongel e de Roxo (apenas se conhecem os seus apelidos), há ainda figuras como Joaquim Ibarra (impressor da corte de Carlos III) ou Antonio Geronimo Gil (fundador de uma Academia no México).
E este é um dos segredos de Feliciano: conciliar a memória e a vanguarda, a incorporação do antigo e a sofisticação do novo, até atingir "um traço histórico de grande contemporaneidade". Apreciador dos conceitos da semiótica, considera que o signo é "a representação sintética da nossa memória colectiva" e remata esse raciocínio sustentando que "é através da tipografia que o homem guarda a memória do homem".
Até agora, olhando para o panorama internacional, não se pode queixar, já que as suas letras são usadas desde revistas americanas até jornais quenianos. Além disso, numa espécie de mostruário, pode colocar diversos jornais importantes que já usam as suas diversas fontes: San Jose Mercury News (EUA), Manchester Evening News (Inglaterra), Irish Times (Irlanda), Finantial Times (versão alemã), Adresseavisen (Noruega), Puls Biznesu (Polónia), Politiken (Dinamarca).
Obviamente que, mesmo não tendo um catálogo tão vasto como o de Giambattista Bodoni (1740-1813) - cujo Manual Tipográfico tinha dezenas de tipos entre romanos, gregos, góticos, cirílicos, asiáticos -, Mário Feliciano tem de atender à especificidade de acentos e letras húngaros e polacos, checos e islandeses, sem esquecer versões em cirílico russo e alfabeto grego. "Hoje em dia", assegura, "ser português é chique. Para um nórdico é importante ter um tipo de letra que não foi feito por um americano, um britânico ou um alemão, mas por alguém de um país periférico."
A cultura gráfica do Norte da Europa - actualmente, o país com melhor ensino nesta área, na sua opinião, é a Holanda - está muito mais avançada do que entre nós. Mário Feliciano cita mesmo um exemplo que lhe faz confusão: "há livros de José Saramago que, pela forma como estão impressos [tipo de letra, corpo - isto é, tamanho -, entrelinhamento] fazem doer a cabeça às pessoas que os lêem". A crítica não é geral, havendo editoras, da & etc à Assírio e Alvim, que Mário Feliciano distingue pela positiva. Afinal, "a letra não é para ser engraçada, é para ser eficaz".
Actualmente, este criador de "escrita pré-fabricada" - cada vez há menos recurso à caligrafia individual, mesmo em áreas onde se celebrizaram, como os preçários das mercearias e as receitas dos médicos - abandonou o design gráfico tout court há dois ano para se passar a dedicar, em exclusivo, à invenção de letras. "A tipografia", alega, "é mais intemporal."
A sua evolução chegou já ao patamar de se preocupar com as novas ferramentas de trabalho - sucessoras do cinzel com que os romanos fizeram as capitalis monumentalis (origem das maiúsculas) e das penas que criaram as minúsculas carolíngias - e Mário Feliciano sabe programar linguagem de computador. Longe vão os anos em que o miúdo pedia uma moeda para comprar folhas de desenho.


[link para o site do Mário Feliciano]

 



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